De mãe para filha, de filha para mãe

 
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Fuçando em minha caixa de email ontem, encontrei uma mensagem que minha mãe me enviou no dia do meu aniversário de 28 anos. Naquela época eu ainda não era mãe, mas hoje essas palavras ganharam um significado mais profundo em minha vida.

Poderíamos portanto dizer que toda mãe contém a filha em si mesma e toda filha, a mãe; e que toda mulher projeta-se para trás estendendo-se na mãe e para a frente, na filha. Essa participação e “entremeação” produz uma estranha incerteza no que concerne ao tempo; a mulher vive antes como mãe e mais tarde como filha. A experiência consciente desses laços produz o sentimento de que sua vida está espalhada sobre gerações – o primeiro passo na direção da experiência imediata e convicção de estar fora do tempo, que traz consigo um sentimento de imortalidade.

Jung, C. G. Collected Works, v.9, 1. Princeton University Press. p. 188.

Na primeira vez que li era apenas uma mensagem bonita de uma mãe amorosa para sua filha primogênita e aniversariante. Hoje leio como mãe que busca realização na existência da filha, e também como filha que busca na mãe sua própria identidade. E pensar que já vivi mergulhada em seus fluidos como parte do seu todo… Antes uma, depois duas e agora três: minha mãe, eu, minha filha. Nasce mãe, nasce filha. Uma existência que dá sentido à outra criando a dimensão da continuidade atemporal.

É a vida que se segue infinita num caminho de gerações.

Namastê! ❤

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O que a violência nos ensina

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Fonte da imagem : Blog Orelhas de Vidro

A educação com violência,  baseada  na imposição do medo, na dor, na punição, na insegurança, na raiva, no descontrole e no imediatismo, se perpetuou de geração em geração por muitos anos. Infelizmente, a violência contra criança, ainda hoje, é algo socialmente aceito. Acontece que os tempos mudaram, as crianças mudaram, logo, também precisamos mudar o nosso olhar sobre a educação que oferecemos à elas!

Posso dizer que tive uma infância feliz, diferente de muitas crianças. Brinquei bastante, tive o amor e o carinho de meus pais, liberdade para explorar e ter experiência ricas. No entanto, também fui vítima da violência reproduzida através dos meus pais. Não estou aqui para julgar o que os levou a usar este recurso, sei que eles tiveram seus motivos e suas limitações, assim como eu tenho as minhas. Todos temos os nossos desafios pessoais, e cabe a nós respeitá-los.

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Fonte da imagem: Google

A maternidade me trouxe um olhar mais íntimo para esta questão e tornou mais fácil a compreensão de que meus pais também foram vítimas dessa violência, provavelmente muito mais do que eu, e que esta era a forma de educar que eles aprenderam. Vivemos numa sociedade onde a violência é aceita e normatizada.

Apesar dos meus pais terem utilizado algum tipo de violência (mais emocional e psicológica do que física) na minha criação, eles foram responsáveis pela quebra de muitos paradigmas dentro da minha família, e isso também se refletiu na educação que deram para mim e meus irmãos. Sim, eles foram revolucionários em vários sentidos e devo a eles muito do que sou (que continuo sendo, me conhecendo e me recriando), mas isso não apaga os erros que cometeram. O fato é que quem sofre a violência jamais esquece.

Durante muito tempo acreditei que era merecedora daqueles cascudos, gritos e palavras ofensivas, como se fosse saudável pra qualquer ser humano se considerar merecedor de violência e humilhação. Hoje consigo enxergar além, e entendo claramente que nenhuma criança é merecedora de qualquer tipo de violência. A cada dia fica mais evidente para mim a falta de respeito com que os adultos tratam a crianças, sendo a violência e o autoritarismo a forma cruel de desrespeito. A necessidade do adulto em mostrar quem é que está no controle e a falta de argumentos (entre outras coisas) para sustentar este “status” leva ao uso da prática da violência como forma afirmar seu “poder”. Porque sim, bater, gritar, ameaçar é mais fácil e “cala a boca” de forma imediata. É a relação do oprimido e do opressor que se reproduz dentro da nossa própria casa.

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Fonte da imagem: Google

Quem nunca ouviu: “Eu é quem mando aqui e você obedece!” ou “Vai fazer porque eu estou mandando!” ou ” Cala a boca e obedece!” ou “Porque NÃO!!” ou ” Faz o que eu estou mandando e não enche a paciência!” ou “Quem manda aqui sou eu” ou “Não faça isso senão você vai apanhar!”, e por aí vai…

Por acaso você fala assim com algum adulto, sem levar uma resposta à altura ou até mesmo uma agressão física?

Se não devemos humilhar, agredir e desrespeitar as pessoas na rua, no trabalho, na escola porque ainda permitimos que algumas crianças sofram esse tipo de tratamento dentro da sua própria casa, por aqueles que deveriam estar praticando formas positivas de educar baseadas no amor e na confiança?

Afinal, o que a violência nos ensina?

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Fonte da imagem: Google

Considero abusiva a prática de bater, além de saber da ineficácia deste ato desrespeitoso e violento. Acontece que violência não tem relação com limites. Existem outras formas de impor limites e violência não é uma delas. Violência não impõe limite, impõe medo. Tenho consciência de que a violência além de física, pode ser emocional ou psicológica e fica registrada no inconsciente da criança.  Pois essa violência ficou registrada em mim, e a maternidade trouxe à tona esta marca que estava guardada lá no meu inconsciente.

O primeiro sinal que tive da existência dessa violência (em mim) e das minhas formas limitadas de educar, foi num episódio em que eu amamentava minha filha e ela mordeu meu seio. Meu  impulso foi gritar e repreendê-la pelo ato que me causou aquela dor. Aquele grito doeu em mim, em algum lugar bem profundo. Ela era um bebê que nunca tinha presenciado uma agressão. Sua reação foi imediata, chorou como se eu tivesse violentado-a fisicamente. Para mim foi o fim! Me senti a pior das criaturas desse universo! A perda de controle me gerou sentimentos de frustração, incapacidade e repulsa de mim mesmo.

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Fonte da imagem: Google

Tenho descoberto todos os dias que educar de forma positiva e consciente exige sair da nossa zona de conforto revisitando os lugares mais abandonados do nosso campo emocional e revendo nossas atitudes automáticas, nossos impulsos inconscientes, pequenos e quase cruéis. É um processo de autoconhecimento que nem sempre é fácil.  São lugares que ficam tão distantes daquilo que gostaríamos de ser, e que seria mais fácil fingir (pra nós mesmas) que ele nem existe.

Penso que educar é buscar vínculos, muito mais que do que simplesmente obedecer, calar, seguir regras. Mas como ensinar aquilo que ainda nem sei?? Esses são alguns dos desafios da maternidade. Os filhos são nossos espelhos e nos mostram o caminho que devemos seguir. Precisamos apenas estar atentas e disponíveis, para aproveitar cada oportunidade que a vida nos dá buscando novos caminhos para evoluir. CAM01448

Para quem, assim como eu, está disposta a percorrer este longo, lindo  e árduo caminho na busca por uma transformação pessoal, indico a leitura do livro “Educar sem violência” da Lígia Moreiras Sena e Andréia C.K. Mortensen, que você pode comprar na loja virtual do blog Cientista que Virou Mãe, da autora.

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Fonte da imagem: Blog Cientista Que Virou Mãe

 “A educação amorosa é um grande passo para darmos mais sentido a nossas vidas: tanto pelo seu valor intrínseco para nossos filhos como indivíduos e para o convívio familiar, quanto pelo que ela pode contribuir para a sustentabilidade planetária e para a justiça social – as grandes questões da nossa geração.”

MAIS EMPATIA POR FAVOR! – sobre a campanha contra o aborto

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Na semana que antecedeu o carnaval uma campanha no facebook desafiava as mulheres a postarem fotos de si mesmas grávidas afirmando serem contra a legalização do aborto.

Fiquei assustada com o número de mulheres apoiando a criminalização do aborto, porém não me surpreendi. Afinal, vivemos numa sociedade machista onde os valores morais baseiam-se numa forma opressora de pensar e de ver o mundo. Acredito que todas nós, mulheres, ganharíamos muito mais se concentrássemos nossas forças não na luta de umas contra as outras, e sim na união, na empatia, na aceitação da história de vida, nas escolhas e decisões de cada UMA.

Quando vejo mulheres que reproduzem o machismo, percebo o quanto estamos desunidas e perdendo a força. Apesar de muitas mulheres terem idéias, falas e atitudes machistas, isso não as torna opressoras, nem tira sua qualidade de vítima; apenas faz delas pessoas menos conscientes da opressão que sofrem – o que não as isenta da responsabilidade de seus atos e palavras.

Li alguns depoimentos, textos lindos, verdadeiros relatos de amor ao filho que está por vir e à outros que já nasceram. Mas o que observei foram apenas exposições de experiências, opiniões e crenças pessoais que nada tem a ver com a questão levantada – LEGALIZAÇÃO DO ABORTO. Trata-se de uma questão muito complexa, que envolve a vida de mulheres e crianças, para ser baseada em opiniões e crenças pessoais. Não podemos usar nossos parâmetros pessoais para decidir sobre a vida e o corpo do outro simplesmente porque não faríamos ou não concordamos. Não se trata de uma pesquisa de opinião! É necessário que a gente consiga estender o olhar para além do nosso lindo umbigo! Entenda: ser a favor da legalização do aborto não significa que você seja obrigada a praticar o ato! Você tem o direito de não fazer!

Se você, baseado no seu estilo de vida, na sua educação, nas suas crenças pessoais, na sua realidade atual, etc, não concorda com o aborto ou não praticaria, ótimo! Simplesmente NÃO FAÇA! Você tem escolha! Você tem esse direito garantido por lei! Olha que bacana!

Mas se você, também baseado em suas crenças, história de vida, etc, optar por fazer um aborto… Você estará cometendo um crime passível de pena e abominado por grande parte da população brasileira, inclusive por muitas mulheres! Sim, elas (suas amigas, irmãs, colegas de trabalho, tias, avós, etc) também te julgarão! Você não tem escolha! Pode ser presa, correrá risco de vida e ainda poderá ser “apedrejada” (entenda: julgada) por suas semelhantes! Então se esconda, fuja, corra, silencie, sofra calada… :/

Quanta opressão!

Será que precisa ser assim? Será esta uma medida justa?

Que tal deixarmos de lado, por um momento, nosso julgamento e nos colocarmos na posição da outra pessoa tentando olhar pela perspectiva dela o que se passa em sua vida, nos despindo, naquele momento, das nossas próprias crenças, da nossa forma de ver o mundo, e adotando as dela?

Sabe qual o nome disso? EMPATIA!

Sentir dor pela dor do outro, alegria pela alegria do outro, tristeza pela tristeza do outro, é o que nos torna humanos! No mundo moderno a prática da humanidade tem se tornado algo da qual precisamos tentar nos lembrar constantemente e, em alguns casos é até considerada uma verdadeira ofensa! Infelizmente, vivemos num mundo que precisa de humanização e onde cada vez mais se perde empatia.

A empatia inclui aceitar que qualquer pessoa pode ser e pensar diferente. Cabe a cada um de nós trabalharmos a nossa moral – ou não.

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Acredito que a legalização seria uma forma de estabelecer limites e abrir diálogo para uma situação que já existe, queira você ou não, goste você ou não. A criminalização do aborto nunca impediu que o ato em si ocorresse, apenas que acontecesse de forma clandestina e perigosa.

Estima-se que uma em cada cinco mulheres já tenham feito pelo menos um aborto.

Mulheres solteiras abortam. Mulheres casadas abortam. Mulheres com filhos abortam. Mulheres sem filhos abortam. Mulheres religiosas abortam. Mulheres com grana abortam. Mulheres sem grana abortam. Mulheres saudáveis abortam. Mulheres doentes abortam.

Enfim, MULHERES ABORTAM independente do seu estado civil, classe social, crença religiosa, etc.

Apenas aceitemos este FATO.

A criminalização do aborto não vai mudar a triste realidade dessas mulheres abortam e se submetem às mais variadas formas de violência colocando sua própria vida em risco por motivos que não nos cabe julgar.

Certamente no círculo de mulheres que você convive alguma delas, ou várias, já praticaram o aborto. Provavelmente você ama alguma mulher que já praticou um aborto. Olhe à sua volta! Neste momento essas mulheres podem estar sofrendo muito com as suas palavras e você jamais saberá disso. Isso não é suficiente para que você reconsidere seu julgamento?

A falta de diálogo e esse silêncio sobre um assunto tão urgente na nossa sociedade me fazem enxergar o pior aspecto da criminalização do aborto. É como se as pessoas quisessem esquecer a existência de um ato que vai contra os valores morais de cada um e, que precisa ser tratado com mais respeito. Não só porque existem mulheres que sofrem sozinhas e caladas enquanto precisam de apoio, mas porque esse diálogo facilitaria a compreensão da escolha do outro (EMPATIA) e o respeito ao direito da mulher em relação ao seu próprio corpo.

Por isso eu convido-o (a) a repensar a questão do aborto com mais EMPATIA e menos julgamento. 😉

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O último tabu – de Carlos González

Hoje trago para vocês mais um texto inspirador retirado do livro Bésame Mucho, do pediatra espanhol Carlos González e traduzido por Clarissa, autora do Blog A Mãe Que Quero Ser. O texto trata de alguns tabus relacionados à criação dos filhos na sociedade atual.

Boa leitura!

Imagem: Google

O último tabu

A nossa sociedade aparenta ser muito tolerante porque tanta coisa que era proibida há 100 anos hoje é considerada completamente normal. E, no entanto, se analisarmos mais a fundo, veremos que existem coisas que há 100 anos eram normais e que hoje são proibidas. Tão completamente proibidas que até nos parecem normais; tão normais quanto as proibições e os tabus de nossos bisavós lhes pareciam ser.

[…] Nossa sociedade, que é bastante tolerante em alguns aspectos, é menos tolerante quando se trata de crianças e mães. Esses tabus modernos podem ser classificados em três grupos:

  • Relativos ao choro: é proibido dar atenção às crianças, colocá-las nos colo ou lhes dar o que desejam quando estão chorando.
  • Relativos ao sono: é proibido deixar as crianças adormecerem em seus braços ou enquanto mamam, ninar ou embalar os bebês para que caiam no sono, dormir com eles na mesma cama.
  • Relativos à amamentação: é proibido amamentá-los no lugar ou na hora que for, ou amamentar uma criança que “passou da idade”.

Quase todos esses tabus têm um elemento em comum: eles proíbem contato físico entre mãe e filho. Por outro lado, todas as atividades que tendem a reduzir o contato físico e aumentar a distância entre mãe e filho são amplamente recomendadas:

  • Deixar a criança sozinha no quarto.
  • Transportá-la num carrinho de bebê ou bebê conforto.
  • Colocá-la na creche o mais cedo possível, ou deixá-la aos cuidados dos avós ou, melhor ainda, de uma babá (as avós “estragam” as crianças!).
  • Mandá-la para uma colônia de férias tão logo seja possível e pelo máximo de tempo possível.
  • Reservar “um tempo a sós” com o cônjuge, sair sem as crianças, curtir a vida “de casal”.

Embora algumas pessoas tentem justificar tais recomendações, insistindo que são para “ajudar as mães a descansarem”, o fato é que não proíbem atividades cansativas. Ninguém diz: “não passe muito tempo arrumando a casa ou seu marido ficará mal acostumado com uma casa limpa” ou “você acabará tendo que lavar suas roupas quando ele sair de casa”. Na verdade, é geralmente a parte mais prazerosa da maternidade que é proibida: deixar seu filho adormecer em seus braços, niná-lo, curtir a sua companhia.

Talvez seja por isso que criar filhos é tão desagradável para algumas mulheres. Requer menos trabalho do que antes (temos água corrente, máquina de lavar, fraldas descartáveis…), porém há menos recompensas. Numa situação normal, em que a mãe está livre para cuidar do filho como ela bem entender, o bebê chora pouco e, quando o faz, é doloroso para a mãe, e ela sente compaixão (“Coitadinho, o que houve?”). No entanto, quando a proíbem de pegá-lo no colo, dormir com ele, oferecer o peito ou consolá-lo, o bebê chora ainda mais, e a mãe fica impotente diante desse choro, e sua reação se torna zangada ou agressiva (“O que foi dessa vez!”).

Todos esses tabus e preconceitos fazem as crianças chorarem, mas também não fazem seus pais mais felizes. Então a quem eles agradam? Talvez aos pediatras, psicólogos, pedagogos e vizinhos que os recomendam? Eles não têm direito de lhe dizer o que fazer ou como viver sua vida ou como tratar seu filho.

Famílias demais sacrificaram a própria felicidade bem como a felicidade de seus filhos no altar de alguns preconceitos infundados.

O objetivo deste livro é derrubar mitos, quebrar tabus, e oferecer a toda mãe a liberdade para desfrutar da maternidade da maneira que deseja.

Esse autor não é demais, minha gente??

Pois então, que tal refletirmos um pouco sobre o assunto abordado no texto?

Porque ignorar a necessidade básica e primordial de toda criança que é o contato corporal e emocional permanente com outro ser humano?

Porque ignorar o instinto materno/paterno de proteger e mimar (com amor) nossos filhos?

Contrapondo os tabus expostos por Carlos González no texto acima,  fiz uma lista com cinco dicas práticas que podem auxiliar pais e filhos no fortalecimento do vínculo afetivo:

  1. Dormir no mesmo cômodo que a criança ou até mesmo na mesma cama (cama compartilhada);
  2. Utilizar slings ou carregadores para transportar a criança, promovendo contato físico e afetivo por mais tempo;
  3. Amamentar em livre demanda levando em consideração as necessidades do bebê de nutrição, conforto e afeto;
  4. Dar bastante colo suprindo as necessidades de contato físico e afeto do bebê;
  5. Incluir a criança nas tarefas do dia-a-dia, em passeios, viagens, etc.

Além das dicas e, antes de mais nada, siga sua intuição, seu coração! Acredite, ninguém pode saber melhor como cuidar de sua cria do que você!

Até o próximo post!

 

Patriarcado e repressão sexual

Esses dias li um texto excelente e gostaria de compartilhar com vocês. Ele traz reflexões sobre a influência do patriarcado e da repressão sexual em nossas vidas. O texto é de Laura Gutman, terapeuta familiar e criadora da metodologia de construção da biografia humana, escreveu livros sobre maternidade, paternidade, vínculos afetivos, desamparo emocional e violência.

Segue abaixo o trecho retirado do livro “O poder do discurso materno” de sua autoria. Espero que gostem! Boa leitura!!

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O pensamento sobre a condição humana normalmente é tingido pela nossa cultura, ou seja, é subjetivo, pois ninguém pode olhar de fora do caminho em que estamos. Isso gera um problema importante: há uma cultura pequena inserida em outra que a contém, que está dentro de outra que a contém, e assim por diante. No fim, Oriente e Ocidente compartilham algo em comum há cerca de 5 mil anos ou mais: o patriarcado como sistema de organização social. O patriarcado se baseia na submissão. Em princípio, da mulher em relação ao homem e da criança em relação ao adulto. Também tem um objetivo prioritário, que é a acumulação de patrimônio. Portanto, a ideia é que alguns acumulem tudo o que seja possível, e para isso será necessário submeter outros para que ofereçam sua força de trabalho. Alguns acumulam, outros servem. Os homens exercem o poder enquanto as mulheres servem. Os adultos decidem enquanto as crianças se submetem ao desejo dos mais velhos.

A ferramenta mais importante do patriarcado para obter a submissão das mulheres tem sido a repressão sexual. Que não tem absolutamente nada que ver com a religião (judaico-cristã no caso). A palavra “religio” deriva de “religare”, que significa relacionar, vincular, associar. A “religio” na Roma clássica se referia às obrigações de cada indivíduo em relação própria comunidade. Era necessário honrar concretamente os valores que constituíam a base da convivência. Então, não foi a religião que obrigou as mulheres a reprimir sua sexualidade, mas a lógica do patriarcado.
Vamos considerar que o propósito principal era a acumulação de terras. As mulheres se constituíram também em propriedade. Se pertenciam ao varão, garantiam o pertencimento dos filhos, futuros proprietários dos bens dele. Para conseguir que as mulheres deixassem de ser sujeitos e se tornassem objetos de uso, era imprescindível que deixassem de “sentir”. As mulheres – por meio dos ciclos vitais – estiveram sempre intimamente ligadas ao próprio corpo. Para deixar de estar tão envolvidas com o próprio corpo, este teve de se tornar perigoso ou pecaminoso. Intocável. Se uma mulher não pode tocar nem ser tocada, o corpo se paralisa, as sensações corporais prazerosas se congelam, e a mulher deixa de ser ela mesma. Torna-se um corpo sem vida em termos femininos, um corpo distante, indomável, incompreendido. A mulher que sangra é considerada suja e impura. Todos entendemos esses conceitos, porque “mamamos” essas crenças, que estão mais arraigadas do que parece.

A humanidade organizada sobre a base da conquista de terras, as guerras – necessárias para aumentar o patrimônio – e a submissão das mulheres são a mesma coisa. Hoje não se conhece cultura que não esteja alinhada a essa forma de vida, a ponto de acreditarmos que o ser humano “é” assim: manipulador, guerreiro, conquistador, injusto. Entretanto, não deixa de ser uma apreciação feita apenas do ponto de vista do patriarcado. É verdade que quase não restam sinais de outros sistemas, que comunidades matrifocais, centradas no respeito pela Mãe Terra, na ecologia, na sexualidade livre, na igualdade entre seres vivos e no amor como valor supremo não sobreviveram. Mesmo que pareça um paradoxo, essa foi a mensagem de Jesus. Mas rapidamente o patriarcado dominante na época se encarregou de transformá-lo nas crenças cristãs que, na prática, não tem nada que ver com as palavras de amor, solidariedade, confiança e igualdade entre os seres vivos que Jesus proclamou.

 A questão é que passamos vários séculos da história mergulhados em repressão sexual. Isso significa que o corpo é considerado baixo e impudico, e o espírito, alto e puro. As pulsões sexuais são malignas. E a totalidade das sensações corporais é indesejada. Em que lugar aprendemos que não há lugar para o corpo e para o prazer? No exato momento do nascimento. Segundos depois de nascer, já deixamos de ser tocados. Perdemos o contato corporal que era contínuo no paraíso uterino. Nascemos de mães reprimidas ao longo de gerações e gerações de mulheres ainda mais reprimidas, rígidas, congeladas, duras, paralisadas, incapazes de tocar e muito menos de acariciar. O sangue congela, o pensamento congela, as intenções congelam e o instinto materno se deteriora, se perde, se descontrói e se transforma.

Nós, mulheres, com séculos de patriarcado nas costas, afastadas de nossa sintonia interior, não queremos parir, nem sentir, nem entrar em contato com a dor. Não sabemos o que é o prazer orgásmico. Carregamos séculos de dureza interior, vivemos com o útero rígido, a pele seca, os braços incapacitados. Não fomos abraçadas por nossas mães, porque elas não foram abraçadas nem embaladas por nossas avós e assim por gerações e gerações de mulheres que perderam o vestígio de brandura feminina. Quando chega o momento de parir, nosso corpo inteiro dói devido à inflexibilidade, à submissão, à falta de ritmo e de carícias. Odiamos nosso corpo que sangra, que muda, que ovula, que mancha, que é ingovernável. E ainda por cima nasce outro corpo que não podemos tocar nem nos aproximar. E não sabemos o que fazer.
É importante levar em conta que, além da submissão e da repressão sexual histórica, as mulheres parem em cativeiro. Há um século – à medida que as mulheres ingressaram no mercado de trabalho, nas universidades e em todos os circuitos de intercâmbio público – cedemos o último bastião do poder feminino: a cena do parto. Já não nos resta nem esse pequeno cantinho de sabedoria ancestral feminina. Acabou-se. Não há mais cena de parto. Agora há tecnologia. Máquinas. Homens. Horários programados. Drogas. Picadas. Ataduras. Lâminas que raspam. Torturas. Silêncio. Ameaças. Resultados. Olhares Invasivos. E medo, claro. Volta a aparecer o medo no único refúgio que durante séculos excluiu os homens. Acontece que entregamos até esse último resguardo. Foi a moeda de troca para que nos permitissem circular por onde há dinheiro e poder político. Entregamos o parto. Foi como vender a alma feminina ao diabo.
Foto: Tammra McCauley/ Flickr – CC BY 2.0
Esta é a concepção de parto para muitos atualmente. Foto: Tammra McCauley/ Flickr – CC BY 2.0
Entregar o parto supõe abandonar nas mãos de outros a vinda do indivíduo que nasce nesse instante. Se estamos confirmando a importância da biografia humana de cada indivíduo e a qualidade da maternagem recebida, não há dúvida de que a maneira como a cria humana é recebida será fundamental na constituição do personagem e na posterior armação da trama familiar.
Foto: Shutterstock
Foto: Shutterstock
Muito bem, mas é possível “entregar”o parto? Pode-se perder algo tão intrínseco ao ser feminino, algo tão próprio como o corpo gestante que dá a luz? Sim, é possível extraviá-lo de todo o seu sentido profundo. Se a mulher está fora de si mesma. Mas por acaso o instinto materno não é mais forte? Depende. Se a situação é de despojo, o instinto terá que se esconder para sobreviver em melhores condições.

Em todos os zoológicos do mundo se sabe que qualquer fêmea mamífera criada em cativeiro terá poucas chances de conceber e dar à luz. Os partos costumam ser difíceis. Então, se não consegue, difícilmente “reconhece”a cria como própria e possivelmente terá dificuldades para amamentá-la e protegê-la. Os cuidadores encarregados do zoológico se verão obrigados a dar assistência tanto à mãe mamífera como à cria, alimetando e higienizando o recém nascido e intervido para que a mãe se relacione com o filho. Acontece algo muito parecido conosco: atravessamos a gravidez totalmente despojadas de nosso saber interior e então parimos em cativeiro: amarradas, picadas, ameaçadas e apressadas. O parto não é nosso. É das máquinas, do pessoal médico, das intervenções e das rotinas hospitalares. Estamos em uma prisão, amarradas de pés e mãos, submetidas a torturas. Nessas condições, por lógica, imediatamente depois de realizado o nascimento, desconhecemos nossa cria. Nas instituições médicas, geralmente o bebê é levado e trazido mais tarde banhado, penteado, vestido e adormecido, depois de receber glicose para que não chore mais do que deveria. A partir desse momento, temos que fazer um esforço intelectual para conhecer esse filho como próprio, com a culpa e a vergonha de pensar internamente que talvez não tenhamos esse desejado “instinto materno”. Somos estranhas assim, temos muito medo de não saber então como ser uma boa mãe, como fazer o certo e como criar esse filho. Na verdade, despossuídas de nosso saber interior, não sabemos de nada. Perguntamos, como meninas, as trivialidades mais rudimentares. Pedimos permissão para segurá-los – e veja o paradoxo: a resposta é negativa.

Fonte: Google
O afastamento do da mãe e do bebê  logo após o nascimento. Foto: Google

O jogo já começou. Proíbem-nos de tocar a criança e levamos em consideração orientações antinaturais estúpidas como essa. Porque somos submissas há séculos, o que nos conduz à mais terrível ignorância. Isso significa que estamos despossuídas, além de termos ficado feridas. Depois do parto medicado, sistematizado e moderno, costumamos estar cortadas, costuradas, enfaixadas e imobilizadas, e a criança costuma estar distante de nosso corpo. Não podemos segurá-la por nossos próprios meios devido às feridas e cortes. Além disso estamos cortadas de nosso ser essencial, com o qual sequer sentimos a necessidade visceral de ter a crianças nos braços. É assim que a maquinaria ancestral do patriarcado continua funcionando à perfeição. Cada criança não tocada por sua mãe é uma criança que servirá à roda da indiferença, à guerra e à submissão de uns pelos outros.

Fonte: Google
“A necessidade básica primordial de toda a criança humana é o contato corporal e emocional permanente com outro ser humano”  Foto: Google

Do ponto de vista da criança, a decepção é enorme. Porque a necessidade básica primordial de toda criança humana é o contato corporal e emocional permanente com outro ser humano. No entanto, se sustentarmos a repressão de nossos impulsos básicos como bastião principal, essa demanda de contato da criança vai se transformar em um problema. Preferimos nos afastar de nosso corpo. Nenhuma outra espécie de mamíferos faria algo tão insólito com a própria cria. Mas para os humanos é comum determinar que o melhor é “deixá-lo chorar”, “que não fique mal acostumado” ou “que não fique manhoso”. Para nós é totalmente habitual que o corpo da criança esteja separado: apenas no berço. Apenas em seu carrinho. Apenas em sua cadeirinha. Supomos que deva dormir sozinho. Cresce um pouco e já opinamos que é grande para pedir abraços ou mimos. Logo depois é grande para chorar. E sem dúvida, sempre é grande para fazer xixi, para ter medo de insetos ou para não querer ir à escola. Se tudo que necessitava desde seu nascimento foi de contato e não obteve, sabe que seu destino é ficar sozinho. Finalmente a criança adoece. Quase todas estão doentes de solidão. Mas nós, adultos, não reconhecemos na doença da criança a necessidade deslocada de contato corporal e presença. A repressão sexual é isso: é medo de tocar a criança porque tocar nos dói. Dói nosso corpo rígido de falta de amor, dói na moral, dói na alma.

A repressão sexual encontrou na moral cristã sua melhor aliada. Porque utiliza ideias espiritualmente elevadas como o amor a Deus para esconder uma realidade muito mais terrena e desprovida de atributos celestiais: a necessidade de possuir o outro como um bem próprio. E a compreensão de todos os medos primários por falta de maternagem é substituída pela acumulação de dinheiro. Inclusive se nós mulheres já nos percebemos como praticantes ou devotas, a repressão sexual continua agindo ao longo de várias gerações, porque nos privamos de tocar nosso corpo e, consequentemente, de tocar o corpo da criança com amor e dedicação.

Quase todas biografias humanas às quais temos acesso são marcadas por níveis de repressão sexual que não imaginávamos pudessem ser tão importantes. Quando precisamos determinar as dinâmicas familiares ou o grau de desamparo emocional sofrido durante a primeira infância, a investigação sobre a moral religiosa da mãe será um dado fundamental. Nessa busca simples, encontraremos a marca principal do sofrimento de cada indivíduo, e nos veremos obrigados a revisar todo o material sombrio que ele tem escondido. Pensemos que a moral e a repressão sexual nos obrigam a mentir. Sim, nos obrigam a agir de forma diversa que nossas pulsões básicas ditam. Daremos nomes altivos a isso ou não, pouco importa. mas à medida que mascaramos nossas verdadeiras e genuínas pulsões com mais empenho, mais nos afastaremos de nossa essência pessoal e mais grosseiramente confeccionaremos a roupa do personagem que vai nos cobrir e disfarçar o que somos.

A vida reprimida normalmente é tão comum e corrente que não paramos para registrar a influência nefasta que a repressão sexual exerce sobre cada um. Esse desastre ecológico, que tem vários séculos de sucesso aberrante, prejudica a vida de homens e mulheres. Nosso trabalho é descobrir, por meio da construção da biografia humana, a porção de repressão, moral, refúgio e medo que cada indivíduo carrega em si, encobrindo o que de mais belo, instintivo e lindamente animal nos faz humanos.

Insisto que abordar o nível de repressão sexual em cada biografia humana é fundamental, tanto em homens como em mulheres. As consequências para as mulheres são facilmente detectáveis. Com um pouco de experiência profissional, registrar o tônus muscular e a dureza do olhar daquelas que nos consultam é suficiente para antever o nível de autoexigência e de rigidez que as mantêm presas. Nos homens pode ser mais complicado detectar, pois conseguem dissociar um pouco mais as pulsões sexuais do contato corporal. Ou seja, pode ter a sensação de que leva uma vida sexual muito ativa, mas com menos registro do vazio emocional. Por isso é possível que não detectem ali um “problema”. Em todos os casos, é necessário investigar e ver o que encontramos.

Fonte: O Poder do Discurso Materno, Capítulo 5, Os Estragos da Repressão Sexual, Patriarcado e Repressão sexual, pág 102 a 109.