As dores do parto

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Quando me perguntam sobre o meu parto, e respondo que foi natural e domiciliar, muitos fazem aquele clássico comentário: “corajosa, heim!”.

E eu me pergunto: corajosa por que??

Não acho que fui corajosa por parir, pois entendo que coragem é o enfrentamento de algo que temos medo. Nunca tive medo de parir e nem da dor. Graças à minha criação sempre enxerguei o parto como algo natural, algo que nosso corpo foi preparado para vivenciar.

Muitas pessoas confundem dor com sofrimento, apesar de serem coisas bem  distintas. A dor do parto é necessária, o sofrimento não.

Parir dói, sim! E como dói!! Mas é uma dor suportável, afinal, nosso corpo foi preparado para passar por isso. E apesar da dor que eu senti, não consigo me lembrar dela. Não me marcou, não foi inesquecível.

Inesquecível foi a emoção e o amor que senti ao ter minha filha pela primeira vez em meus braços, olhar em seus olhos, sentir o seu calor e seu cheiro! Lembro do cheirinho dela até hoje! Isso sim me marcou! Isso sim foi inesquecível!

A dor passa, o amor não!

Se fui corajosa não foi por parir, e sim por sair da minha zona de conforto e enfrentar a batalha que é, nos dias de hoje, ter um parto digno e respeitoso dentro do nosso sistema.

Para parir basta ter confiança e empoderamento. E para ter confiança basta buscar informações e conhecimento. O emponderamento acontece quando a mulher acredita na sua força e poder.

Laura Gutman escreveu um lindo texto sobre as dores do parto e sobre a função dessa dor na hora do parto.

Leiam com carinho!

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As dores do parto 

A dor – tão desprestigiada nos tempos modernos – é necessária ao recolhimento. A dor permite que nos desliguemos do mundo pensante, percamos o controle e esqueçamos condutas corretas. A dor é nossa amiga. Para entrar no túnel do desprendimento do bebê, é indispensável abandonar mentalmente o mundo concreto. Parir é passar de um a estágio a outro. É uma ruptura espiritual. E, como qualquer ruptura, dói. O parto não é uma doença a ser curada. É uma passagem para outra dimensão. Por mais que não gostemos da palavra “dor”, é pertinente dizer que a dor do parto é suportável, desde que este não seja induzido, não seja ministrado ocitocina sintética para acelerar as contrações e estejamos sendo acompanhadas e cuidadas.

No entanto, não é possível suportar o sofrimento. É importante esclarecer que as mulheres não sofrem por causa das contrações. Sofrem quando ficam sozinhas, humilhadas, maltratadas, ameaçadas ou atemorizadas. E ninguém merece passar por isso.

Se soubéssemos que o parto não é somente um ato físico que começa com as contrações uterinas e termina com o nascimento do bebê e o desprendimento da placenta, mas que é sobretudo uma experiência mística, pensaríamos nele de outra maneira. Como fato sexual, temos o direito de vivê-lo na intimidade, com profundo respeito, em consonância com a nossa história, as nossas necessidades e os nossos desejos pessoais. “Intimidade” significa estar conectada com o nosso ser profundo, sem avaliações externas do que é “bom” ou “mal”. Cada parto deveria ser diferente e único. O parto deveria ser nosso.

No entanto, isso só é possível quando alguém nos ampara. Quando contamos com um acompanhamento amoroso por parte dos profissionais ou de seres queridos dispostos a cuidar de nós e estar à nossa disposição. Por isso, é imprescindível escolher a melhor companhia para esta viagem. Não nos conformemos com o que “todo mundo escolhe”, com os médicos da moda ou famosos. Pelo contrário, precisamos avaliar quem está disposto a cuidar da gente envolvendo-se generosamente, não se importa se forem assistentes ou acompanhantes afetivos.

Trecho extraído do Livro “Mulheres visíveis, mãe invisíveis” de Laura Gutman