Relato de Parto de Isabela – O Nascimento do Príncipe Guerreiro

Passada toda a polêmica envolvendo o post do Relato de Parto da Isabela e sua retirada  do ar, a pedido da própria Isabela, acho importante a divulgação e discussão dessa história não só para que ela sirva de alerta a outras famílias, mas também como um exemplo de superação, força, coragem, amor e fé. Nos momentos mais difíceis é que mostramos nossas maiores virtudes, e essa família, que tenho em meu coração, me mostrou o quanto podemos ir além e transformar nossas vidas. Espero que essa história também toque o coração de vocês!

“Sempre quis ser mãe. Exercer a maternidade da forma mais pura e plena sempre foi meu desejo. Quando descobri que estava grávida me senti muito feliz. Procurei uma profissional humanizada para fazer meu acompanhamento pré-natal, porque eu acreditava e acredito que o parto, quando humanizado, é um parto em que as mulheres ficam mais satisfeitas, pois suas escolhas são respeitadas. Eu gostaria de ter um parto lindo com o mínimo de intervenção possível. Um parto onde a equipe saberia quem eu sou e me daria suporte técnico e emocional para parir.

Meu pré-natal foi adequado, a médica me transmitia segurança e eu tinha muita confiança nela. Contratei uma doula para me amparar e oferecer apoio emocional durante o trabalho de parto.A doula era a minha professora de ioga e achei que seria a melhor escolha, pois já nos conhecíamos, tínhamos um bom relacionamento e nos encontrávamos pelo menos duas vezes na semana, mesmo que rapidamente. Frequentei também um encontro de educação perinatal organizado pela própria doula onde nos era informado sobre violências obstétricas, intervenções desnecessárias, fases do trabalho de parto e entre outras coisas inerentes ao parto.

Bem, depois de frequentar estas reuniões e no decorrer do pré-natal fui chegando a conclusão de que a melhor forma de trazer meu filho ao mundo seria através de um parto domiciliar planejado, pois dentro da minha casa eu acreditava que me sentiria mais acolhida para lidar com as dores, teria mais liberdade de ficar onde eu me sentisse melhor, na posição que eu me sentisse melhor. Acho meu lar um ambiente acolhedor e pensava que este ambiente era o lugar ideal para receber meu bebê.  Eu sabia que na minha casa só me dariam oxitocina se realmente necessário, não me fariam episiotomia, não pingariam o colírio de nitrato de prata nos olhos do meu bebê, meu marido poderia ficar  comigo o tempo todo, o cordão umbilical só seria cortado depois de parar de pulsar e, eu e meu bebê ficaríamos no contato pele a pele nos primeiros minutos de vida dele. Segundo as orientações da doula e da médica, em meu domicílio eu estaria protegida de qualquer tipo de violência e, sendo uma gestante de baixo risco, tudo seria do jeito que eu escolhi. O parto seria meu e, caso houvesse o menor sinal de risco para o bebê, a equipe faria a remoção para o hospital mais próximo.

Meu bebê ficou sentado com 32 semanas, o que me causou certa preocupação. Conversei com a médica sobre isso e ela me tranquilizou dizendo que os bebês sabem nascer, e que o parto pélvico é um tabu no Brasil. Disse também que, como era pélvico, ela achava ainda mais indicado que o parto fosse em minha casa porque todos que estariam ali presentes acreditavam neste tipo de parto. Para tanto me solicitou um exame de ecografia onde o médico verificaria o tamanho da circunferência da cabeça do bebê. No exame o médico me disse que a circunferência estava satisfatória e que meu bebê poderia nascer de um parto normal apesar de estar sentado (pélvico). Fiquei muito feliz e minha médica me disse que estava então tudo certo para a realização do parto domiciliar planejado.

E então chegou o grande dia !

A noite, por volta de 21 horas, meu tampão saiu e me senti muito feliz, pois sabia que o parto seria a experiência mais magnífica da minha vida. Avisei a doula e a médica pelo whatsapp, conforme combinado previamente no consultório. Comecei a sentir uma queimação na coluna muito forte, que ia e vinha, sentia aminha coluna se abrindo. Achei melhor ligar para a minha doula, aquela que iria me fazer massagens e me apoiar naquele momento, mas para meu espanto ela me disse que eu estava sentindo os pródromos (falso trabalho de parto) e que não poderia ir na minha casa, pois estava muito cansada devido a um parto anterior. A doula me pediu que eu deixasse a equipe descansar para que na hora certa eu pudesse ter um atendimento de qualidade. Falei que a dor era muito intensa e que seria bom tê-la ali comigo, mas ela se negou. disse que ainda demoraria muito para começar meu trabalho de parto efetivo e me orientou que tomasse dois comprimidos de buscopan para a cólica e que tentasse dormir um pouco. No entanto o remédio não aliviou as dores e continuamos enviando mensagens e telefonando para a doula, e pedindo a sua presença. Ela se recusava e insistia que eu não estava ainda em trabalho de parto. E assim foi a noite inteira, ora eu ligava ora meu marido ligava.

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Fonte da Imagem: Blog Visão de Ilitia (Divulgação autorizada)

Enquanto a médica e a doula não chegavam, eu tentava lidar com o meu parto da melhor forma possível, sem entender o porquê da equipe que eu havia contratado para me assistir não estava se fazendo presente ali comigo naquele momento tão único e importante.

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Fonte da Imagem: Blog Visão de Ilitia (Divulgação autorizada)

Quando amanheceu senti um alívio, pois eu sabia que em breve eles chegariam, o bebê nasceria e tudo ficaria bem. Porém, já havia passado 1 hora desde que a doula disse que estava indo para a minha casa e nada dela chegar. Logo comecei a sentir vontade de me espremer e tive a sensação de que meu bebê começava a sair. Informamos novamente a doula e a médica, que correram para a minha casa. Eu estava decepcionada com a equipe, mas tentei não pensar nisso, pois meu bebê estava chegando e eu não queria perder a minha concentração e tampouco me desconectar daquele momento tão desejado por mim.

Meu príncipe começou a sair, Só estava eu e meu marido em casa na hora. Meu marido estava em pânico, mas tentava disfarçar para que eu não percebesse e isso não interferisse no meu trabalho de parto. Finalmente, chega a doula que se mostra visivelmente nervosa com a situação. Ela tentou pegar a minha mão, mas eu soltei a sua mão, pois estava decepcionada demais para aceitar qualquer tipo de aproximação. Passei a noite inteira com fortes dores, avisando que eu estava em trabalho de parto e ela se recusou a todo momento a ir à minha casa e me prestar o apoio que eu necessitava, insistindo que se tratava de pródromos. E mesmo que eu estivesse nos pródromos, ela tinha a obrigação de dar assistência e ter ido à minha casa para me avaliar pessoalmente e conversar comigo, ou então, ela poderia ter acionado sua backup ou mesmo chamado a médica para se certificar de que meu TP não tinha começado.Fiquei muito decepcionada com o serviço prestado por esta doula.

Depois que a doula chegou em minha casa, ela ficou ao telefone com a médica e relatou a saída dos pés e braços do bebê pela região vaginal, a mudança de coloração do cordão umbilical que demonstrava a parada de fornecimento de oxigênio entre mãe e bebê e a ocorrência de sofrimento fetal. A médica instruiu a doula por telefone a fazer o procedimento para tentar tirar a cabeça do bebê tentando fazer uma manobra para a saída do bebê. Após esse último contato a médica chegou. Meu filho passou mais de 5 minutos sem oxigênio e precisava de fórceps para ser retirado, como a médica não tinha o instrumento naquele momento, ela usou as mãos para retirar o bebê de dentro de mim, sem a devida higienização.

Eu sei que o mais importante naquele momento era salvar a vida do meu bebê, mas nada disso teria ocorrido da forma horrível como aconteceu se elas estivessem presentes na minha casa para me assistir como foi planejado, combinado e solicitado.

Meu bebê precisou ser reanimado com oxigênio, pois nasceu com parada respiratória. Fiquei quieta em oração. Não sabia se ele sobreviveria, me sentia magoada e com medo, muito medo. Meu filho decidiu viver e lutou bravamente. Ele respirou sozinho após 42 minutos de reanimação, e então elas colocaram uma touca nele, tiraram uma foto, sem minha permissão e me parabenizaram pelo belo bebê que acabava de chegar. Fiquei confusa, feliz, atordoada com tudo que tinha ocorrido. Achei que estava tudo bem.

Meu filho foi levado para o quarto dele onde ficou no oxigênio se restabelecendo. Eu estava exausta, sentia que já não tinha mais forças e que necessitava dormir. Depois de me costurar, a médica me disse que precisava ir embora, pois estava assistindo outro parto no hospital e teve que abandonar a outra mãe para vir me prestar socorro. Deixou meu bebê com a enfermeira e a doula. Depois de me alimentar, com a ajuda da doula, dormi (desmaiei) por mais ou menos 3 horas. Quando acordei, perguntei pelo bebê e depois de mais umas 2 horas vi que a médica tinha retornado à minha casa.

A equipe já estava há 9 horas na minha casa e, por fim, colocaram meu bebê em meus braços, no contato pele a pele e foi quando a saturação de oxigênio no sangue do bebê caiu à 46, sendo que o valor mínimo aceitável é 95, decidiram então que meu bebê seria removido, pois ele não conseguia assumir a respiração sozinho e até o momento não havia corado.

Eu achava tudo muito confuso, pois o tempo todo elas me disseram que meu bebê estava bem, mas que estava se restabelecendo de um parto difícil. Antes de irmos para o hospital, fui instruída a mentir e omitir várias informações. A equipe disse que o bebê seria tratado de forma diferente no hospital por se tratar de um parto domiciliar, então, falaram para eu dizer que o planejamento inicial era um parto hospitalar, mas que não deu tempo de ir pro hospital e que, por isso, acidentalmente meu filho teria nascido em casa. A equipe me disse que dessa forma eu estaria protegendo meu bebê.

Meu bebê foi removido no carro da médica no horário de rush, a médica foi dirigindo, meu filho estava no colo da enfermeira respirando com a ajuda de um cilindro de oxigênio. A médica falou que, como não cabíamos todos no carro, eu, meu marido e a doula fôssemos em outro carro. Mais uma vez fui separada do meu bebê. Até hoje não entendo por que ela não chamou uma ambulância para fazer a remoção, que foi considerada de alto risco, e nem telefonou no hospital para se informar de havia vaga na UTI neonatal.

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Fonte da Imagem: Blog Visão de Ilitia (Divulgação autorizada)

Quando meu filho foi pra UTI, elas mentiram para os plantonistas a hora de nascimento dele. Fizeram isso sem me consultar previamente, ele havia nascido às 7:50h e elas falaram que ele nasceu às 15:00 horas. Depois elas justificaram a mentira para mim dizendo que os médicos da UTI neonatal não entendiam de parto domiciliar, que tinham preconceito e que elas fizeram isso para proteger eu e meu bebê de possíveis julgamentos.

Moral da história, eu não conseguia entender o estado de gravidade do meu filho porque elas camuflaram a realidade do quadro dele o tempo todo. Quando a equipe que realizou meu parto decidiu transferir o meu bebê para o hospital, me disseram que ele estava bem, que só precisava de mais um pouco de oxigênio e que em 24 horas ele estaria em casa novamente. A verdade é que eu só saí com o meu filho do hospital 43 dias após o seu nascimento. A mentira sobre o horário do nascimento dele contribuiu para que os médicos da UTI demorassem a fechar um prognóstico do quadro de saúde do meu filho. Meu bebê ficou 23 dias e estado gravíssimo na UTI.

Cabe ressaltar que a equipe que contratei para fazer meu parto em nenhum momento me instruiu a dizer o horário correto do nascimento dele e quando contei a verdade sobre tal horário a médica se mostrou preocupada e a enfermeira se mostrou ríspida, chegando a dizer que quando elas foram na minha casa sabiam que se tratava de um possível óbito para o bebê e que caso elas não tivessem ido, apesar de eu e meu bebê termos morrido, elas não estariam em apuros. Fiquei horrorizada ao ouvir isso e percebi que realmente não tinha nenhum contrato assinado que obrigasse a médica e a enfermeira a fazer meu parto.

Infelizmente, meu filho sofreu duas lesões no cérebro em decorrência da asfixia na hora do nascimento, com implicações no seu desenvolvimento motor, fato este que implica em constante acompanhamento por fisioterapeuta, neuropediatra, entre outros profissionais, bem como uso de medicamentos controlados para evitar ocorrências de convulsões. Ainda não sei se haverá outras limitações além das já existentes, o que me angustia.

Eu e meu marido estávamos em estado de choque profundo. Não desejo que nenhuma família sinta a dor de ver seu bebê entre a vida e a morte na UTI. Eu me senti abandonada por aquelas que me venderam o parto domiciliar planejado e humanizado. Hoje carrego marcas e cicatrizes por tudo o que eu vivi. Sinto-me angustiada por ter sido enganada, por ter sofrido violência obstétrica dentro da minha própria casa e em tamanha proporção. Fico triste em saber que elas não estavam na minha casa porque estavam em outro parto e que não tiveram a decência e a responsabilidade de acionar a equipe backup, colocando a minha vida e a do meu filho em risco. Nossas vidas foram menosprezadas, deixadas em segundo plano. O que deveria ter sido um dos momentos mais lindos e emocionantes da minha vida se tornou o meu pior pesadelo. Onde estava a empatia, o cuidado, o carinho e o respeito durante o trabalho de parto? Onde estava a minha “equipe humanizada” quando eu mais precisei dela? Como reparar isso??? Não sei.

Fonte da Imagem: Blog Visão de Ilitia (Divulgação autorizada)

Decidi escrever meu relato, pois desejo que nenhuma gestante passe pelo que eu passei. Penso, inclusive, que as pessoas que levantam a bandeira do “parto humanizado” precisam saber que existem profissionais “desumanizados” e sem ética, agindo de forma irresponsável com total desrespeito à mãe e ao bebê e usando o rótulo da humanização em seu próprio benefício. Como corrigir isso??? Não sei.

Estou fazendo a minha parte para que isso não volte a acontecer com outras mulheres e para que a humanização do parto seja um movimento legítimo em seu significado mais profundo e não apenas um modismo ou um rótulo bonito. Por isso, decidi processar e denunciar essas pessoas que me fizeram tão mal e espero que a justiça seja feita.

Gostaria de terminar meu relato agradecendo a Deus, que operou um milagre na vida do meu filho, à toda equipe da UTI neonatal, à dedicação incessante de vocês foi essencial para que meu bebê estivesse hoje nos meus braços e a todos os amigos e familiares que nos ajudaram a atravessar o momento mais doloroso de nossas vidas.”

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