O que a violência nos ensina

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Fonte da imagem : Blog Orelhas de Vidro

A educação com violência,  baseada  na imposição do medo, na dor, na punição, na insegurança, na raiva, no descontrole e no imediatismo, se perpetuou de geração em geração por muitos anos. Infelizmente, a violência contra criança, ainda hoje, é algo socialmente aceito. Acontece que os tempos mudaram, as crianças mudaram, logo, também precisamos mudar o nosso olhar sobre a educação que oferecemos à elas!

Posso dizer que tive uma infância feliz, diferente de muitas crianças. Brinquei bastante, tive o amor e o carinho de meus pais, liberdade para explorar e ter experiência ricas. No entanto, também fui vítima da violência reproduzida através dos meus pais. Não estou aqui para julgar o que os levou a usar este recurso, sei que eles tiveram seus motivos e suas limitações, assim como eu tenho as minhas. Todos temos os nossos desafios pessoais, e cabe a nós respeitá-los.

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Fonte da imagem: Google

A maternidade me trouxe um olhar mais íntimo para esta questão e tornou mais fácil a compreensão de que meus pais também foram vítimas dessa violência, provavelmente muito mais do que eu, e que esta era a forma de educar que eles aprenderam. Vivemos numa sociedade onde a violência é aceita e normatizada.

Apesar dos meus pais terem utilizado algum tipo de violência (mais emocional e psicológica do que física) na minha criação, eles foram responsáveis pela quebra de muitos paradigmas dentro da minha família, e isso também se refletiu na educação que deram para mim e meus irmãos. Sim, eles foram revolucionários em vários sentidos e devo a eles muito do que sou (que continuo sendo, me conhecendo e me recriando), mas isso não apaga os erros que cometeram. O fato é que quem sofre a violência jamais esquece.

Durante muito tempo acreditei que era merecedora daqueles cascudos, gritos e palavras ofensivas, como se fosse saudável pra qualquer ser humano se considerar merecedor de violência e humilhação. Hoje consigo enxergar além, e entendo claramente que nenhuma criança é merecedora de qualquer tipo de violência. A cada dia fica mais evidente para mim a falta de respeito com que os adultos tratam a crianças, sendo a violência e o autoritarismo a forma cruel de desrespeito. A necessidade do adulto em mostrar quem é que está no controle e a falta de argumentos (entre outras coisas) para sustentar este “status” leva ao uso da prática da violência como forma afirmar seu “poder”. Porque sim, bater, gritar, ameaçar é mais fácil e “cala a boca” de forma imediata. É a relação do oprimido e do opressor que se reproduz dentro da nossa própria casa.

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Fonte da imagem: Google

Quem nunca ouviu: “Eu é quem mando aqui e você obedece!” ou “Vai fazer porque eu estou mandando!” ou ” Cala a boca e obedece!” ou “Porque NÃO!!” ou ” Faz o que eu estou mandando e não enche a paciência!” ou “Quem manda aqui sou eu” ou “Não faça isso senão você vai apanhar!”, e por aí vai…

Por acaso você fala assim com algum adulto, sem levar uma resposta à altura ou até mesmo uma agressão física?

Se não devemos humilhar, agredir e desrespeitar as pessoas na rua, no trabalho, na escola porque ainda permitimos que algumas crianças sofram esse tipo de tratamento dentro da sua própria casa, por aqueles que deveriam estar praticando formas positivas de educar baseadas no amor e na confiança?

Afinal, o que a violência nos ensina?

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Fonte da imagem: Google

Considero abusiva a prática de bater, além de saber da ineficácia deste ato desrespeitoso e violento. Acontece que violência não tem relação com limites. Existem outras formas de impor limites e violência não é uma delas. Violência não impõe limite, impõe medo. Tenho consciência de que a violência além de física, pode ser emocional ou psicológica e fica registrada no inconsciente da criança.  Pois essa violência ficou registrada em mim, e a maternidade trouxe à tona esta marca que estava guardada lá no meu inconsciente.

O primeiro sinal que tive da existência dessa violência (em mim) e das minhas formas limitadas de educar, foi num episódio em que eu amamentava minha filha e ela mordeu meu seio. Meu  impulso foi gritar e repreendê-la pelo ato que me causou aquela dor. Aquele grito doeu em mim, em algum lugar bem profundo. Ela era um bebê que nunca tinha presenciado uma agressão. Sua reação foi imediata, chorou como se eu tivesse violentado-a fisicamente. Para mim foi o fim! Me senti a pior das criaturas desse universo! A perda de controle me gerou sentimentos de frustração, incapacidade e repulsa de mim mesmo.

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Fonte da imagem: Google

Tenho descoberto todos os dias que educar de forma positiva e consciente exige sair da nossa zona de conforto revisitando os lugares mais abandonados do nosso campo emocional e revendo nossas atitudes automáticas, nossos impulsos inconscientes, pequenos e quase cruéis. É um processo de autoconhecimento que nem sempre é fácil.  São lugares que ficam tão distantes daquilo que gostaríamos de ser, e que seria mais fácil fingir (pra nós mesmas) que ele nem existe.

Penso que educar é buscar vínculos, muito mais que do que simplesmente obedecer, calar, seguir regras. Mas como ensinar aquilo que ainda nem sei?? Esses são alguns dos desafios da maternidade. Os filhos são nossos espelhos e nos mostram o caminho que devemos seguir. Precisamos apenas estar atentas e disponíveis, para aproveitar cada oportunidade que a vida nos dá buscando novos caminhos para evoluir. CAM01448

Para quem, assim como eu, está disposta a percorrer este longo, lindo  e árduo caminho na busca por uma transformação pessoal, indico a leitura do livro “Educar sem violência” da Lígia Moreiras Sena e Andréia C.K. Mortensen, que você pode comprar na loja virtual do blog Cientista que Virou Mãe, da autora.

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Fonte da imagem: Blog Cientista Que Virou Mãe

 “A educação amorosa é um grande passo para darmos mais sentido a nossas vidas: tanto pelo seu valor intrínseco para nossos filhos como indivíduos e para o convívio familiar, quanto pelo que ela pode contribuir para a sustentabilidade planetária e para a justiça social – as grandes questões da nossa geração.”