Diga-me com quem dormes e eu te direi…

Foto: janellewoo.com
Foto: janellewoo.com

Um assunto bastante controverso e que divide opiniões é a tal da cama compartilhada. Confesso que até acho engraçada essa mania que o povo tem de opinar em tudo, até na forma como dormimos! Considero uma decisão muito pessoal a escolha de onde, como e com quem dormimos, e isso se estende também aos nossos filhos até que eles cresçam e tenham autonomia suficiente para decidir sobre essas questões. Devemos tomar cuidado com conselhos e opiniões de livros, artigos, pediatras, familiares ou amigos que dizem que “tem que ser ou fazer assim ou assado, pois esse é o único jeito certo”. Lembrem-se de que cabe única e exclusivamente aos pais (em negrito) responder à questão “Aonde meu bebê deve dormir?”, entre tantas outras questões acerca da maternidade e/ou paternidade. Porque venhamos e convenhamos, não existem regras universais de como criar um filho! Cada família tem uma realidade diferente e, o que serve para uma pode não servir para outra. A convicção da família sobre esta escolha deveria ser suficiente para legitimar tal decisão. Portanto, ouçam seus instintos maternais e paternais, pois com certeza eles valem mais do que mil conselhos!

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Enfim, então vamos falar deste tema polêmico e alvo de tantas críticas!

Na sociedade moderna atual existe uma cultura arraigada, especialmente aqui no ocidente, de proporcionar o afastamento físico entre mãe e bebê, e isso já começa desde o nascimento quando o bebê é separado da mãe na primeira hora de vida dentro das maternidades. E essa “tradição” se perpetua quando a mãe volta para casa e  o bebê tem que dormir no berço em quarto separado dos pais, quando falam pra mãe que o bebê vai ficar mimado se der no colo demais, quando falam que o choro do bebê não deve ser atendido prontamente, etc, etc, etc. Nessa sociedade moderna onde os valores materiais são maiores que os valores afetivos, a ideia de se criar bebês independentes  tomou força por causa da inserção da mulher no mercado de trabalho e dos movimentos feministas. Assim, criou-se a ideia de que bebês que tem o seu choro atendido prontamente, que recebem proteção e são supridos em sua necessidade de contato físico e afeto, ficam dependentes dos pais. Porém, o que ficou esquecido é que bebês não se tornam dependentes, eles são dependentes!

Imagina um bebê que acabou de sair de um lugar escurinho, quentinho, apertadinho, embalado pelos passos ritmados e movimentos da mãe e, cuja trilha sonora era o som do útero e dos batimentos cardíacos materno… Agora imagina este mesmo bebê num local desconhecido, frio, espaçoso demais para ele, silencioso, tranqüilo e sozinho. O bebê interpreta seu próprio quarto como um sinal de que foi abandonado, de que está sozinho num lugar totalmente estranho a ele. Quando deixamos nosso bebês sozinhos esquecemos das suas necessidades básicas de proximidade e afeto.

“A noite é um abismo longo e escuro para os bebês terem que atravessar sozinhos”

Laura Gutman

É comum ver mães exaustas porque ficam a noite toda num ciclo interminável onde: bebê chora –> pais acordam e vão até o quarto do bebê –> atendem as necessidades do bebê (mamar, arrotar e trocar fralda) –>colocam o bebê para dormir –> voltam para seu quarto; e o ciclo recomeça de novo, e de novo, e de novo, e assim vai pela madrugada adentro. Também ouço relatos de pais que se desesperam porque o bebê só dorme bem quando está no colo e se colocado no seu berço, chora como se isso fosse uma tortura para eles. E há ainda aqueles pais tentam acostumar o bebê a dormir sozinho desde cedo para torná-lo “independente” (loucura, não??!!). Alguns métodos utilizados para “treinar” o sono do bebê ensinam os pais a ignorar seu choro a fim de “vencer” a reação natural da criança que chora quando deixada sozinha, o que acaba criando uma situação que afeta de forma negativa tanto a qualidade do sono quanto vínculo afetivo entre pais e bebês.

É necessário alertar que raramente um bebê adormece sozinho e dorme a noite toda desde o princípio, muitos necessitam de contato físico e emocional durante a noite. Será que não vale a pena refletir porque o bebê não gosta de dormir no berço sozinho? A melhor forma de lidar com o sono do bebê nas primeiras semanas de vida é oferecendo-lhe um ambiente que lhe é agradável. E o que pode ser mais agradável para um bebê recém-nascido do que contato direto com sua mãe? Nada, né, gente?! Para o bebê não existe local mais seguro, confortável e agradável do que o colinho e o peitão da mamãe!!

Muitos pais que seguem as teorias da Extero-Gestação e da Criação com Apego optam por dormir junto de seus bebês colocando-os em suas próprias camas ou em anexos acoplados à ela. Essa prática é comumente chamada cama compartilhada ou “co-sleeping” e os casais que optam por ela devem se informar a respeito de alguns cuidados (nada demais, apenas o mínimo de bom senso) antes de colocá-la em prática.

Existem estudos que condenam esta prática afirmando que o risco de morte súbita nos recém nascidos é maior quando estes compartilham a cama com seus pais. No Blog cientista que virou mãe foi publicada uma análise, feita por Tracy Cassels, do artigo científico que associa a cama compartilhada à síndrome de morte súbita em recém nascidos, que questiona suas conclusões, visto que vários dados usados no estudo são inconclusivos, bem como houve uma confusão nos critérios utilizados para definir o que é a cama compartilhada e quais seus riscos. Por outro lado, muitos estudos  científicos comprovam os benefícios da cama compartilhada para os pais e para os bebês. Pesquisadores do Departamento de Neurologia da Universidade da California publicaram um artigo concluindo que prática de cama compartilhada diminui os riscos da morte súbita do recém nascido, pois qualquer alteração em seu sono será percebida pela mãe e socorrida prontamente. Além disso, o estudo também comprova a  melhora da qualidade do sono dos bebês diminuindo o número de vezes que acordam à noite.

Os benefícios da cama compartilhada, tanto para a criança quanto para o adulto, são comprovados não só através de estudos científicos, mas  também por meio de experiências empíricas sendo praticada por muitas famílias em diferentes culturas.  Cada vez mais casais vem optando por dormir junto de seus filhos e, assim, terem noites de sono mais tranquilas.

Estudos à parte, o que importa é a decisão pessoal de cada família de acordo com a sua realidade. Não existem regras nem normas quando o assunto diz respeito à vida de uma família. Cada uma precisa encontrar o que é melhor para si, confiando em seu instinto, ouvindo seu coração e seguindo aquilo satisfaz as suas necessidades sempre com amor e respeito.

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Aqui em casa não foi diferente! Praticamos a cama compartilhada desde que Luna Maria chegou ao mundo. Hoje, um ano e um mês depois, ainda dormimos com a nossa pimpolha, mas agora nós migramos para o quarto dela, juntamos dois colchões de solteiro e fizemos um camão no chão. É uma delícia acordar junto dos meus amores todos os dias! Além disso, é claro, os motivos que me levaram à tal escolha foram a busca por segurança, proximidade física e emocional da minha cria durante a noite  e, a praticidade e comodidade de não precisar levantar da cama facilitando os cuidados com o bebê e, especialmente, a amamentação. A Luna Maria nem se quer abre os olhos! Quando ela dá aquela resmungada eu já coloco os “super peitões” para fora, ela dá uma mamadinha express e volta a dormir. Não tem erro!! Assim, o sono da família permanece minimamente preservado (totalmente é “impossible”!!).

Todo bebê apresenta ciclos de sono onde há pequenos despertares durante a noite. Assim, é super normal que os bebês despertem nas fases de sono leve. Alguns bebês conseguem voltar a dormir sozinhos, assim dizemos que “dormem bem”, mas a maior parte deles precisa de ajuda para voltar a dormir. A Luna Maria quase nunca precisou ser embalada no meio da noite nos primeiros meses pois não acordava muito durante a madrugada. Depois de alguns meses (após os 7 meses) as coisas mudaram um pouquinho e ela começou a despertar mais vezes durante a noite para mamar. No entanto, isso não foi um problema, pois com a prática da cama compartilhada ela nem chegava a acordar e já estava sendo amamentada. Tudo  fluiu de forma muito natural.

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Lembro que nos primeiros dias de vida de Luna Maria coloquei ela para dormir no moisés ao lado da minha cama. Eu acordava de 10 em 10 minutos para ver se ela estava respirando. Sabia até o ritmo da respiração dela e quando ele mudava eu ia dar uma checada para ver se estava tudo bem. Que nóia!!! Quando decidi colocá-la para dormir na nossa cama confesso que foi um alívio para mim sentir a respiração dela tão de pertinho. Não existe sensação melhor do que acordar e ver aquele serzinho de luz todo descabelado e com um sorriso de orelha a orelha olhando para você! Ainda tem os carinhos que ela me faz durante a noite e as surpresinhas pela manhã, como ser acordada com um dedinho lindo e fofo cutucando meu olho!! Hoje em dia rola até beijinho de bom dia!! Aimmm!! Morro de amores e satisfação em ver minha cria crescendo feliz e se sentindo plenamente amada e protegida.

Bem, com a gente a cama compartilhada tem dado certo até o presente momento em que escrevo este post. Amanhã… Só Deus sabe, minha gente!

Cama compartilhada (Fonte: google)

 

Segue alguns benefícios da prática da cama compartilhada:

  • Ela facilita o aleitamento materno e sincroniza o sono dos dois *1,2,3,4,5
  • Quando feita com os cuidados necessários diminui a incidência da síndrome de morte subida do recém-nascido *2,3,4
  • A mãe não precisa se levantar para amamentar, nem mesmo acordar completamente para amamentar, conseguindo descansar mais *4,5
  • Estudos mostram que crianças que dormem com os pais são mais autoconfiantes e tem maior autonomia do que as crianças que não o fazem *4
  • Intensifica os vínculos afetivos com os pais *4,5
  • Os bebês choram menos *4,5
  • Os bebês estão mais protegidos, pois caso precisem de socorro, os pais percebem com maior rapidez *2,3,4,5

Quais os cuidados básicos que se deve ter para compartilhar a cama?

  • Não utilizar colchas ou edredons pesados
  • Não utilizar muitos travesseiros na cama
  • Não dormir alcoolizado ou sob efeito de outras drogas ou remédios controlados
  • Colocar o bebê para dormir entre a mãe e a parede

Livros recomendados:

  • William, Robert, James e Martha Sears, The baby sleep book. Little Brown and Company, Time Warner Book Group (2005).
  • Elizabeth Pantley, Soluções para noites sem choro. Editora Mbooks (2002).
  • Harvey Karp, O bebê mais feliz do pedaço. Editora Planeta do Brasil (2004).
  • Margot Sunderland, The science of parenting. DK Publishing Inc. (2006).
  • Hetty van de rijt, Frans Plooij. Oje, ich wachse. Goldmann Publisher (1998).
  • Sleeping with Your Baby: A Parent’s Guide to Cosleeping. James J. McKenna. Platypus Media (2007)

Fontes consultadas:

¹MOTTA, Danielle.  Um bebê na cama dos pais. Revista Eletrônica Polêmica. Disponível em http://www.polemica.uerj.br/pol22/cquestoesc/artigos/contemp_4.pdf

²SENA, Ligia. Cama compartilhada: por que é bom e seguro? Disponível em http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/03/cama-compartilhada-por-que-e-bom-e.html

³ http://www.attachmentparenting.org/infantsleepsafety/

http://www.slingando.com/index.php/compartilhar-a-cama-com-o-bebe.html

http://www3.nd.edu/~jmckenn1/lab/advantages.html

http://www.cosleeping.org/

https://pt-br.facebook.com/…camacompartilhada/301069299917486

http://pediatrics.aappublications.org/content/100/5/841.short

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5 comentários sobre “Diga-me com quem dormes e eu te direi…

  1. Com o Enzo, a partir do momento em que percebemos como era bom para nós três… decidimos que o que importava era isto. Estarmos bem e curtir esta fase tão gostosa… O Enzo, não tem nada de dependente, apesar de toda “opinião alheia” contra tudo o que fiz, parar de trabalhar para ficar com ele… amamenta-lo até quando sentimos que era bom para nós dois… dormir com ele até quando ficou grande demais para nossa cama!! Percebo que é até o contrário, o fato de ter a segurança de saber que me teria se precisasse, o fez querer aprender a fazer tudo sozinho!! Assim, hoje com o Hugo, é a mesma coisa…

    1. Flávia, sei como é difícil lidar com o excesso de opiniões de amigos, familiares, médicos e até mesmo de gente que nunca vimos na vida sobre as decisões que tomamos enquanto MÃE, especialmente quando estas decisões não estão dentro do padrão que a sociedade dita como “normal” ou “aceitável”. Vivo isso todos os dias. Mas o que importa é você estar certa de que está dando o melhor de si e passando os valores e a educação na qual você acredita. Ouça sempre sua intuição de mãe antes de ouvir opiniões alheias de pessoas que muitas vezes nem conhecem a realidade da sua família. Obrigada por dedicar uns minutos do seu dia pra ler o texto e compartilhar sua experiência. Um beijo grande!

  2. Concordo inteiramente com vc! Nao tem como dizer o q e certo ou errado pois todos nos temos as respostas em nos mesmos. No caso da minha familia que vc conhece bem optamos por dormir junto. Dudinha, quando moravamos em nikiti, dormia na nossa cama japonesa realmente camas baixas dao segurança e facilita muito. Houve o tempo em q ela dormiu no quartinho dela mas no meio da noite sempre ia se aninhar junto com os pais.
    Hj em dia com 12 anos e enorme que é, ainda dorme comigo sempre e amo muito e dormirei com ela ate quando ela quiser e sei q a maē tb faz a mesma coisa!
    Adorei ler seu artigo e estou ansioso pelos que virão! Bem lucida. Saudades!

    1. Tiago, obrigada por dedicar 5 minutos do seu dia para ler o artigo. Fico muito grata! Com certeza você e a Lua foram inspirações enquanto eu escrevia o texto! A Duda é um exemplo de como foi e está sendo benéfico a prática da cama compartilhada tanto pra ela quanto pra vocês! Um beijo grande e até breve!

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